Um café com o Bruxo do Cosme Velho

machado

Está quente, a cozinha; o sol entra pelas janelas fartas, deixando marcos nas cadeiras e na mesa. Um destes raios, atrevido, se estende até a xícara de meu café. Oras! pois é meu, acabei de o fazer, diz-lhe ao raio que, amuado, recuou alguns milímetros.

Com ar de vitoriosa, levei a xícara aos lábios; o corpo e a mente estavam já preparados para receber aquele líquido quente e…

Toc, toc, toc!

E lá se foi o meu gole, caindo em minha camisa. Podia jurar que vi o raio do sol tremular, como se risse.

Toc, toc, toc!

Alguém bateu à porta de novo, quase de forma impaciente. Levantei-me enfim – preocupada em deixar a xícara o mais afastada da iluminação possível – e fui me ter com quem batia na porta.

Não era ninguém menos que Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho.

Estupefata – afinal, estamos nos anos de 2018, 110 anos após a morte do escritor, se me lembro corretamente das datas -, não tinha o que dizer além de abrir a porta e permanecer de pé em frente ao autor, que, de carne e unha, deixava-se entrar em minha cozinha e tomava um lugar para sentar à mesa.

-Uma xícara de café e um copo d’água, por obséquio, pois viajo de muito longe. – disse Machado, como se fosse um íntimo, tirando um relógio de cobre do bolso e checando o horário.

Por conta de toda aquela intimidade e simplicidade de maneiras, me dirigi ao bule de café que havia passado há pouco e servi o resto do conteúdo em uma xícara – inconscientemente ou não, peguei a mais arrumada, leia-se, a menos arranhada, que tinha e ofereci ao escritor. Fui então a geladeira para pegar a garrafa d’água quando me veio um sobressalto – na época de Machado, geladeiras para fins domésticos ainda não existiam. Olhei de canto dos olhos se o escritor expressava alguma surpresa pelo eletrodoméstico – mas este se encontrava distraído com o café em mãos e a observar pela janela a fora.

Entreguei o copo de água e sentei na cadeira oposta ao escritor – ainda em silêncio. Permaneci assim enquanto ele tomava dois largos goles do copo que o ofereci.

-Muito obrigado; faz realmente muito calor hoje. Se me permites, me servirei mais um pouco – ele disse, fazendo pouca cerimônia, entornando mais água da garrafa que deixei em cima da mesa.

– Aããmm… – foi o máximo que consegui consentir.

– Se tens problemas de garganta, recomendo tomar uma colheirinha de mel e pigarrear – ele disse, com ar genuino de preocupação. – Nada me molesta mais que permanecer com a garganta travada quando me vens o ar de conversar.

–  Aããmm… – tornei a repetir, desta vez, um tanto encabulada. Tomei um golé de café – que desceu rápido e quente demais -, pigarreei e prossegui a minha fala, que soava como um menino passando pela puberdade – hm, Senhor? Poderia perguntar o que fazes em minha cozinha?

Vi um sorriso se formar no canto de seus lábios.

-Senhor?  Por favor, não sou senhor de nada, já me viu com terras e enormes propriedades?  Talvez, sim, eu seja senhor de palavras, isto é, quando elas decidem se comportar e a obedecer minhas canetas. Não, por favor, não me chame de senhor; pode me chamar de Joaquim, já que aqui estamos em um ambiente informal – disse ele pausadamente, lançando um olhas às minhas roupas, que consistiam de trapos com desculpa de serem pijama, com a recém mancha de café devido à minha batalha pela posse do mesmo.

Olhei para minhas próprias roupas e, em uma fração de segundo, realmente pensei que não eram as mais apropriadas para receber Machado de Assis em minha cozinha; no entanto, me conformei com o pensamento de que, provavelmente, ninguém se veste a ocasião de esperar Machado de Assis bater à sua porta em um domingo de manhã. Estava, portanto, aliviada. Havia questões mais importantes martelando em minha testa.

– Desculpa pelos trajes. – foi tudo que consegui responder.

-Não se preocupes; vim sem avisar, não poderia esperar uma comitiva de recepção – disse ele, de novo com o sorriso no canto dos lábios. – Penso que te perguntas porque vim, o porque de estar aqui?

Meramente acenei com a cabeça, ainda incapaz de formular frases mais complexas em minha língua.

-Algumas perguntas não necessariamente vem acompanhadas de respostas. Algumas perguntas são solitárias, andam aquém nesta Terra, sem companhia: ora, mesmo que sejam únicas, ímpares, não nos cabe, meros humanos, a simplesmente ignorá-las.

Ele terminou a frase e eu assenti, sem ter mesmo certeza que entendi o que foi dito.

– Vejo que interrompi sua leitura – ele disse, se referindo com um lançar de olhos a um livro que jazia esquecido, desde o momento que fiz o café, no centro da mesa. Enrubesci quando ele leu o próprio nome na capa – Memórias póstumas de Brás Cubas, por Machado de Assis. – ele leu, com um sorriso que não estava na boca e sim no som das palavras – Muito bom, gostei muito de escrever este volume.

Eu acenei com a cabeça.

-E eu gostei de ler. – disse, ainda me sentindo pre-púbere enquanto falava – Um livro escrito por um cadáver, o quão genial foi em seu tempo!

-Não chame genial – ele disse, humilde, apesar de sentir um centésimo de orgulho em suas palavras – Nova perspectiva, talvez, é um termo que prefiro. Gênios são outros, como Virgílio, Shakespeare, Byron: eu sou apenas um pequeno, uma pequena voz em meio a tantas outras que tiveram coragem de publicar seus pensamentos.

Hoje em dia te consideram gênio incalculável, pensei comigo mesma, sem ter coragem para dizer em voz alta.

– Geralmente, quando venho, vêm me importunar sobre Capitu. Oras, que perguntem à ela! – disse o escritor, com um ar de falta de paciência, como se houvesse outras pessoas na sala a quem ele se dirigisse – Dom Casmurro, livro que também gostei tantíssimo de escrever, é o que hoje mais me importuna de perguntas. Se eu soubesse que seria tão complicado assim… – deixou sua frase solta no ar enquanto tomava um gole de café.

Aflita, me mexi um tanto para a direita em ordem à esconder a estante de livros que se encontrava atrás de mim onde, em laranja brilhante, se encontrava o meu exemplar de Dom Casmurro.

– Peço desculpas pelo meu lapso de impaciência – disse ele, enfim, após se acalmar com a memória de pessoas se perguntando da fidelidade de Capitu à Bentinho. – Como vês, sou já velho; aos velhos, cabe o remorso, a rabugice, a falta de paciência. Ah, que deveras falta me faz os meus tempos de mocidade…

Machado de Assis terminou o conteúdo de sua xícara de café e, mesmo sem ter pedido, fui ao balcão para passar mais café no filtro; lembrei-me de minha xícara, que agora se prostava sobre a mesa, esquecida e fria.

-Acho que desviei muito da pergunta que fez, minha cara. Sobre o motivo que eu vim – disse ele, acentuando com a cabeça um obrigado pelo fato de sua xícara novamente estar cheia de café – Vim por vir, sem muito motivo. Me fazia falta de tomar um café e estar por estar, assim, numa mesa de cozinha num domingo de manhã. Alguns prazeres terrenos me fazem corroer em saudades!

Com esse dito, tomou um gole do café fresco e juro que vi seu corpo tremelicar um pouco em alegria e satisfação.

-Vens muito à Terra?  – perguntei, como se fosse uma pergunta banal, dessas que se faz em conversas de elevador.

– Não muito, pois não quero me apegar aos vícios que cá estão e que há muito tempo me despedi. Mas há certas coisas que, na alma da gente, ficam gravadas. Alguns chamam de memórias; eu, no entanto, penso que são como cicatrizes, pois estão sempre ali, a vistas de todos. Memórias são invisíveis, fluídas; podem ir e vir com facilidade, e desaparecer na flecha do tempo. Cicatrizes são, na maioria dos casos, permanentes; causam mudanças em baixo da nossa pele, se re-arranjam as células e o plasma; são individuais, nunca tem duas cicatrizes que se assemelhem. Pois, mesmo aqui, neste lado aquém da vida, a alma ainda apresenta essas cicatrizes que de vez em quando doem e remoem, o que nos força à voltar. Mas, quando o incomodo se extingue, sabe-se que já é hora de retornar.

-Para onde, este retorno?

Um sorriso, desta vez bem largo, se abriu no rosto do escritor.

Há mais mistérios entre o céu e a terra, Horatio, do que supõe nossa vã filosofia – disse ele apenas. A frase me soou familiar, embora não conseguia me lembrar de onde.

Um silêncio se prostrou entre nós dois, e eu não conseguia achar o que falar. Machado de Assis olhava fora da janela, se entretendo com a vista das folhas que suavemente balançavam ao vento e as bicicletas que hora em outra passavam à fora. Ninguém do lado de fora – absolutamente ninguém – parava e olhava cá dentro, olhava para essa mesa onde uma menina de trajes velhos se sentava com Machado de Assis, vestido de terno à moda de época. Era como se tudo isso fosse normal, algo cotiadiano.

-Ouvi dizer que tem ganas de ser escritora – disse Machado enfim, ainda com o rosto virado para a janela.

-Sim, de vez em quando me atrevo a escrever algumas coisas que me vem à mente, mas não são muito organizadas – disse, enrubescida, como se tivesse dando uma desculpa. – Mas sei que tenho muito caminho ainda pela frente se quero considerar algo que escrevo como digno…

-Digno de que? – interrompeu-me ele, desta vez olhando nos fundos dos meus olhos – Digno de receber elogios de críticos literários? Para que, se estes vão te comer viva, se o único papel fundamental destes é criticar a todos os ventos aos invés de compreender? Digno de se transformar em livros? Para que, se estes vão ficar escondidos em prateleiras e enfim esquecidos? Não! Não não… Escrever não é algo que deve ser considerado digno de alguma coisa – se escreve porque se escreve, e ponto. Não tem finalidade alguma; se quiser ter finalidade, escreva comercialmente – esses sim, tens aos montes cá na Terra, inclusive no meu tempo se tinha.

-Escrever é transpor e transbordar o que já existe – continuou ele, depois de uma pausa, após estar mais calmo. – Por isso não precisa ser digno de nada, basta ser uma continuação de quem és. Se escreves para que outra pessoa leia, está fazendo errado – disse ele, em tom de advertência – Escrever é se expor ao mundo, expor suas qualidades e, principalmente, seus defeitos. Por tal, escrever é um ato de coragem. Tu, já que leu meus livros, viu o quanto de peito se precisa ter para expor ao mundo toda a sujeirice que nos enroda.

Assenti, pensando em personagens das estórias de Machado de Assis; todos essencialmente humanos, com suas falhas e conquistas, estupidez e sagacidade, vícios e virtudes.

– Mas uma estória pode existir sem leitores? Existe livro sem leitor? – perguntei, impressionada com a própria assertividade em minha voz.

-Não, creio que não – seu tom foi baixo, como se fosse um tanto doloroso admitir isso – Mas basta apenas um leitor. Basta apenas que uma pessoa leia para que a existência daquelas palavras sejam confirmadas. Basta apenas um leitor, um mísero leitor, para que a estória ganhe vida.

As palavras que sairam de sua boca ficaram no ar e eu me peguei contemplando-as por muito tempo, como se fossem pequenos passarinhos que desenhassem circuitos no espaço em cima da minha mesa. Estes voavam tão rápido e em zigue-zague que sabia que não poderia tê-los pousados em minha mão – teria que me confortar com os rastros de ideias.

Um deles veio a pousar em cima do Memória Póstumas, e se aconchegou ali como se fosse um ninho próprio. Um raio de sol se estendeu sobre o passarinho – que parecia um canarinho amarelo – e este sacudiu as asas, como se agradecia pelo calor.

Olhei para frente, para ver se Machado de Assis também observava com carinho os passarinhos que voavam alegres ao redor de nossa cabeça – no entanto, percebi que estava sozinha.

Os passarinhos, então, tão rápido como vieram, também desapareceram.

Restava apenas um copo de água pela metade ao lado de uma xícara de café, vazia deste líquido escura, ainda meio morna pelo café que uns instantes atrás era bebido.

Levei os copos e as xícaras à pia para lavá-los depois e me sentei novamente à mesa, com a cabeça ainda cheia de cicatrizes, canarinhos e um quê de Hamlet que ainda não entendia direito porque veio a mente.

Deixei estes pensamentos de lado, depositando-os sobre a parte da mesa iluminada pelo sol, e abri o livro para continuar a leitura que havia sido interrompida.

Do canto dos olhos, via o raio de sol tremelicar contente com os presentes que o havia dado.

Lentamente, fora da janela, a manhã se desfazia em tarde.

 

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sobre a xícara que não teve leitura de folhas de chá

 

Still life with cup and Saucer, Cézanne

Still Life with Cup And Saucer Painting by Paul Cezanne

esperar a água ferver para colocar o chá de maçã,
espero, paro, penso
o maior medo que tenho
é o dessa espera
sentar na beira da cama com os olhos no vazio,
a mente no esmo
faz sentir como se estivesse à beira do precipício
a vertigem que toma conta do ar
enquanto a água condensa e ferve
o vapor que se espalha
o sangue que esparrama
ai, senhor, tenha piedade de mim!
nessa espera de transição de fases
onde fico aqui, na espera
sem saber o que escrever
na próxima linha
deste nó que vem do fundo do estômago
e sobe até a garganta
a água ferve,
os ponteiros correm,
a xícara espera,
vazia.

a água ferveu,
e não teve ninguém para colocar o chá na xícara
que ficou,
vazia
e fria.

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Sobre tentar explicar saudades a um estrangeiro

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O Pescador, Ivan Borges

Estranha essa saudade de mar,

Pois bem, não era dessas do afinco às conchas, aos grãos de areia, das espumas

Pois o mar estava sempre ali

Por cima do meu ombro

Passando quase como despercebido

-mas o quebrar das ondas batia, convulsionava, apertava

Como aperto de coração

Assim, dentro de mim.

 

Não era dessas de afinco,

De andar com conchas em brinco,

De espumas por chinelas

Grãos de areia enfeitando os cachos,

A pele beijada pelo sol – mutio ao contrário!

 

O calor que tonteava, o vento que batia, a folia, as crianças correndo

Não, dizia: não, preciso de mais quietude,

De mais paz

Talvez mais verde

Menos azul

Pois bem, dizia a mim mesma.

 

Agora, léguas distante de um banco de areia,

Lugar de asfalto e de grama, sem uma grama de areia,

Que estranha essa saudade de mar!

Desse infinito azul que nós dá a impressão de ser sem fim

Mas que sempre chega

à um porto longíquo

 

Não era dessas do afinco,

Do suor, da pele exposta,

Da quentura, da brisa

Das conchas espalhadas, estiçalhadas

Mas ah! Digo:

Que estranha essa saudade de mar

De contemplar o infinito azul

E banhar em águas de Yemanjá

Pois é em verbo de amor que se cabe todo mar…

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The Sirens’ of Odysseus – or Sisyphus’ boulder: An (attempted) Ode to Science and Art

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Washington DC, 15th November 2017

Society for Neuroscience Conference 2017

 

In the classical book of Homer, Odysseus had to cross the island of Anthemoessa to be reunited with his home land. “Dive thy ship swiftly past the island”, Circe warned the greek hero: for the island was home of beautiful – but tragic – creatures called Sirens. They were half mermaids, half birds; and even more beautiful than the Siren’s face  were their voices, which were able to lure numerous sailors to death.

Aware of the danger he was taking his men to, and also aware of the prophecy it was put on him, Odysseus told his men to put bee wax on their ears to protect themselves from the lovely and wicked singing of the Sirens. Together with it, he ordered his men to tie him up to the mast and no matter what he would say or beg, they would not be allowed to take him away from there.

Upon hearing the chant of the creatures and their beautiful faces, Odysseus quivered. “Come hither, come hither, brave Odysseus!”; they called, and Odysseus pleaded to be released. His men only bound him tighter.

It is said that the Sirens die when they are not able to lure men to their final fate.  After Odysseus’ triumphant plan, it is believed that the Sirens had to drawn themselves into failure.

This passage of the Odyssey can have it’s meaning extrapolated in many ways to nowaday’s daily life. As, for instance, a sudden burst of passion for someone unreachable or untouchable – Odysseus tied to the mast would be the passion itself, only to be released when logic once again takes over of one’s mind (or even it can be literal rope and bondage thing, if in any case you are into that...), or we can even extrapolate it simply as being a mechanism of axonal regeneration after injury.

Yes, you heard it right.

Recently Dr. Frank Bradke gave a lecture at Society for Neuroscience about his work on axonal growth following injury. Making long story short – as I believe many here don’t have enough interest in the subject – he compared his severed axons as being Odysseus on the mast, unresponsive to cues on the environment (the Sirens) indicating for growth arrest and the safe passage from the Anthemoessa islands as being the successful regeneration after injury.

Too much extrapolation? Maybe. Beautifully explained? Yes, and please give me some more of that!

Ever since my interest in neuroscience arose, I’ve always tried to observe things happening in a second level of perception. I don’t know exactly how to explain it, but I think there is a word that would maybe try to convey what I mean: apophenia, or, as wikipedia describes it, “the tendency to attribute meaning to perceived connections or patterns between seemingly unrelated things” or “(implies) an universal human tendency to seek patterns in random information”.

We, human beings, are very comfortable if we can find patterns in the most random the examples. Like the gambler’s fallacy or the pareidolia (I wrote a text about the “apparent” anatomical findings in Michelangelo’s paintings here (in Portuguese)), we find meaning in these patterns, and these petty meanings could be considered our own little instinct of survival (unless you consider yourself nihilist, so maybe you are now rolling your eyes at my own little idiosyncrasies).

However, getting back on track – I always try to find a bridge between my personal interests (art, writing, human behavior) and the cold, sterile analytical side of science. Even though I am very interested in axon growth and migration mechanisms (as it was the subject of my bachelor thesis), I confess I was dozy and almost asleep while Dr. Bradke was mentioning all the molecules, signalling pathways, Taxol-induced stabilization of microtubules… but on the next slide, when I saw the painting of Waterhouse, I was channeling a molecular-mechanisms-of-axon-growth-and-regeneration groupie (if that even exists).

Another example in the Society for Neuroscience was Dr. Pasko Rakic, a very well-humored serbian neuroscientist, known for his radial unit hypothesis and further work on the development of the cortex. He showed one of my favorite paintings, La Clairvoyance, of René Magritte. This painting shows a self portrait of Magritte during his process of creation – he stares at an egg, but he paints a bird. As a painter, Magritte is making a statement:

I am a clairvoyant, I convey the future in my part, I see the process of creation and existence in advance – and that only because I am an artist

Dr. Rakic, however, boldly announced the bridge between this painting and the work of a scientist. A scientist should be able to see things outside of the box, outside of the conventional way – a broader picture of the present’s reality must be in sight in order for science to prevail, as we know it is a very flexible and innovating faculty (if you do not agree, just remind yourself the fact that for many years – and still today, surprisingly!!! – humans declared the Earth to be flat). 

“Science and art walk together, you should know that”, added Rakic, after showing Magritte’s painting and making his point.

Having Leonardo da Vinci as my spiritual mentor (I hope I am not sounding too spiritualistic for a scientist), the concept of art and science walking together is already a consolidated fact in my formation. It’s impossible not to notice the science behind Escher’s paintings, or the art behind Cajal’s depiction of pyramidal neurons. One can argue that you can do them separately – but then we come to this second level of perception I introduced earlier.

Upon doing science and making discoveries using (truth and rightful scientific method): how can one not find beautiful that Nature’s laws obey to no God, to no one, but to the laws of Physics and Life itself? (Of course, ‘beauty‘ is a human subjective attribute, but we are the ones observing it, not emotion-deprived aliens from outerspace)

Upon painting an artwork with no reference to science or the natural laws: still the painting is going to be observed by photoreceptors in the retina and decoded in the primary visual area in the occipital lobe, and maybe it will have connections with the limbic system and the hyppocampus, triggering memories or sensations from previous years… and then the observant will become aware of these mental processes happening inside his brain.

What I’m trying to explain is complicated and I believe I have been failing miserably. I might have end up in a Sisyphus’ trap: I might have condemned myself to eternity to try to explain how come thinking of art and science interlinked makes so much sense in my own little point of view in the world. Maybe I should try to stop here, or maybe I just should have my brain checked in fMRI while I am looking at Magritte’s paintings, or while I am reading Kandel’s Principles of Neuroscience, to see which areas are going to light up.

“Come hither, come hither, neuroscience apprentice!”, invites me Art, flamboyant and warm, while the boulder of the cold, razor-sharp logic of Science weights in my back. Upon not knowing where to go, I remain aboard the ship, hoping it won’t sink, hopping it won’t drawn.

Oh, this is going to be a long ride…

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Salvador Dalì, Alice in Wonderland series

 

Yesterday I had a fight with the clock.

That rather old one, that tics noisily when the minutes are passing,

That one hanging by the wall,

The wall made of sea miles and land kilometers

 

I fought with it, so restlessly, as it seems to work slowly,

slow,

slower

 

-Tell me, my fellow clock, why do you insist on going by so slowly?

Have not the weight of time succumbed on your nails and screws?

Have not it made you want to fall from the wall?

 

-My dear, said the clock,

I am afraid I cannot stop and much less, to accelerate on your will

The laws that govern me go beyond to that known to men,

even less known to the ones who are in love

 

-Tell me, my fellow clock, what would happen if I dared to pull your pointers and set chord to you?

 

-My child, you shall dare not, replied the clock,

For if you dare to move me, nothing will happen

For I am unstoppable and I can only go forward,

on my own pace, without change.

I can only be accelerated in times of happiness,

I can only be frozen during a tight embrace

Your case is of waiting, my child,

and I am afraid my only protocol is going slower,

slowly,

slow.

 

-That’s unfair!, I screamed into the clock on the wall

It’s unfair that my only hope is now to wait

To sit here and wait the tics away

 

-Hush now, my dear child, for life is made of waiting and planning and calculating,

and even a bit more of acting.

You can plead as you want for me to go faster, but I’ll keep my pace

And your only choice is to have yours as well,

before it’s too late.

 

With these words, I finally calmed myself down

knowing it would be useless to fight against Time

as I know

 

The only real teacher in life is Time,

as it is the only doctor,

advocate

or engineer.

Let time pass and praise it,

for only IT is God,

and only It can give the answers for the questions we so long to ask.

 

Knowing this, I closed my eyes,

listening to the faint tic-tac comming from the clock.

 

Time was flowing from it,

and the sounds grew louder,

only to synchronize to the beating of my heart, tum-ta

 

tic, 

tum

 

tac, 

ta

 

tic, tac

tum, ta.

 

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A Lição de Anatomia do Prof. Dr. Arístides Leônidas

 

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A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, Rembrandt

 

ORIGINALMENTE EM: Amazon Kindle

N.A.: por estar publicado no Amazon Kindle, creio que não posso deixar por aqui por muito tempo. Esta página talvez venha a ser deletada.

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Que rufem os tambores, que soem as trombetas!

Que os anjos do céu venham à Terra chorar suas lágrimas de comoção, que o arcanjo Gabriel venha para coroar com folhas de louro a cabeça d’O Iluminado, O Onipotente, O Grande Mestre..!

O corredor do Instituto de Ciências Biomédicas estava em polvorosa: eis que vinha o Prof. Dr. Arístides Leônidas, lendário e emérito, talvez o acadêmico mais ilustre de toda a Universidade.

Raramente visto fora de seu laboratório ou da sala de aula, o Prof. Leônidas causava grande comoção ao caminhar pelos corredores com seu queixo erguido, o peito inflado como o de um pavão, o jaleco tão imaculado que faria a Virgem chorar.  Carregava sempre sua maletinha com as notas de aula, que sacolejava para cá e para lá em movimentos perfeitamente pendulares.

Muitos eram os que esperneavam e brigavam por uma vaga no laboratório do Prof. Dr. Leônidas: diziam que sua equipe de pesquisadoras era la crème de la crème da ciência. Algumas fofocas se atreviam a contar que dali sairia o primeiro prêmio Nobel da Medicina ou Fisiologia para o Brasil. Para entrar na seleta equipe do laboratório, no entanto, deve-se passar primeiramente por uma entrevista com o professor Leônidas, o próprio: e dessa fase, nenhum rele mortal consegue sair ileso.

O professor era extremamente exigente. Não aceitava qualquer tipo de erro, seja lá de qual magnitude fosse. Os alunos, durante a aula, sentiam um medo mortal de levantar a mão para tirar qualquer dúvida: o silêncio era cortante, como se mil navalhas estivessem presentes no ar, preparadas para degolar a garganta daquele que se aventurasse a perguntar algo. As aulas eram sempre sofridas para os alunos de graduação, pois estes deviam permanecer como estátuas em suas cadeiras; os alunos da pós-graduação, no entanto, faltavam apenas limpar o chão que o professor pisava com a própria língua, de tanto que queriam participar da equipe do professor.

Sofrendo de TOC, transtorno obsessivo compulsivo, o professor Leônidas só conseguia começar a aula após abrir e fechar seu caderno três vezes, ler os tópicos que seriam dados em sala de aula seis vezes, polir o seu cálice de vinho nove vezes – aqui, vale uma pequena nota: o professor se recusava a beber de garrafas d’água ou do bebedouro: carregava sempre consigo uma taça de vinho, feita do cristal mais fino, para tal propósito – e, finalmente, beber seu conteúdo inteiro em doze pequenos goles.

O que está acontecendo?, Por que estão todos saindo de sala?, Aquele ali é o professor Leônidas?, perguntavam vozes curiosas no corredor. O professor emérito Leônidas vai inaugurar a nova ala do bloco de Anatomia, respondia uma outra voz, carregada de soberba – era, fatalmente, um dos componentes da equipe do célebre professor.

O temido, inabalável e altíssimo professor estava alheio a todos os discursos: havia desenvolvido em sua vida a incrível capacidade de não escutar nenhum comentário vindo de outra pessoa, fechando-se assim em seus próprios pensamentos e reflexões, que certamente eram mais importantes do que opiniões externas.

Vivia assim sua vida, dividida entre o laboratório e a sala de aula, além de algumas outras questões acadêmicas aqui e ali, como a atual situação de inaugurar novas facilidades da Universidade. Estava sempre viajando pelo Brasil e pelo mundo, colecionando prêmios e homenagens. No entanto, se você o perguntar – se conseguir  transpassar a barreira impenetrável de soberba e atingir o patamar de dialogo com o dito-cujo – sobre as ruelas de Paris, as cores da Cidade do México, as sessões de Jazz em Nova Orleans, irá obter a seca e direta resposta:

-Eu estava lá à trabalho, não para ficar passeando. E você, já terminou seus afazeres? Pois está com bastante tempo para tagarelar…

Ninguém sabia se o professor tinha família. Suspeitavam que a resposta seria negativa, afinal, o mesmo passava todo o seu tempo dentro da Universidade, inclusive em datas festivas.  O professor Leônidas também era conhecido por nunca dizer nada de sua vida pessoal para colegas e alunos, sendo assim uma eterna incógnita aos olhos de todos.

Enfim: voltemos ao cenário descrito anteriormente.

Estavam todos os grandes célebres do Instituto e também de outros cantos da Universidade. Até mesmo o Reitor compareceu para apertar as mãos – gélidas – de Leônidas. Todas as grandes mentes pensantes da ciência brasileira estavam concentradas no ambiente, e até mesmo uma assessoria da imprensa estava disposta ali, tomando notas e tirando fotos. Em diversos grupinhos de alunos se escutavam comentários maldosos sobre o professor; e alguns entre tais eram anotados pela imprensa.

O professor Leônidas se postou em frente a porta do novo bloco, o qual tinha em sua entrada uma enorme cópia do quadro de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp. Não dando muita bola para o quadro que ali estava, o professor levantou a mão, requisitando o silêncio de todos os presentes.

Fez-se um silêncio mortal no ambiente; até mesmo o ar-condicionado e os mosquitos presentes na sala fizeram questão de se aquietar.

Pigarreando, o professor iniciou:

-Meus caros, é com grande prazer que eu anuncio a abertura de nossa nova ala do Bloco Anatômico de nosso respeitável Instituto. Que este bloco seja um ambiente de muito estudo e prosperidade em descobertas científicas sobre esta imensa máquina orgânica que nos carrega pela vida.

Sendo aplaudido, o professor girou a chave que segurava em sua mão, dando abertura ao novo bloco. Todos que ali estavam se depararam com um corredor completamente branco e polido, com diversas salas e materiais propícios para o estudo de anatomia. Nas paredes, encontravam-se estudos anatômicos de Leonardo da Vinci, Michelangelo, cópias do quadro de van Mierevelt, entre outros.

Leônidas olhou tudo aquilo em completo horror: de sua testa, escorregou uma gota de suor, e seus bigodes tremeram, parecendo o início de um foco de terremoto.

O que é isso? – sussurrou Leônidas ao diretor do Instituto de Ciências Biomédicas – Por que tem quadros aqui?

O diretor do Instituto sorriu, olhando para o estudo do feto de Leonardo da Vinci. Achei que iria dar um ar mais leve ao bloco de anatomia, respondeu.

O bigode de Leônidas continuou a tremelicar e mais uma gota de suor rolou de sua testa, agora vermelha.

Todos que estavam presentes na inauguração ainda mantinham o silêncio:  alguns estavam roxos de segurar o fôlego, tamanha era a tensão no ambiente. Ninguém conseguia escutar o que se passava entre os dois célebres professores, mas sabiam que não era nada bom.

Ar mais leve?! – sussurrou rispidamente. – Isto é um instituto sério, pelo amor de Deus! Os alunos aqui não devem estar preocupados com um ambiente leve, e sim um ambiente focado, direcionado. Olha quantas distrações esse corredor tem agora! Quando pediram minha opinião, eu disse: um corredor branco, limpo! Não é isto que vejo!

Distante, os alunos começaram a sentir uma rufada forte de vento: o chão pareceu tremer, como se o epicentro do terremoto que começava do bigode de Leônidas estivesse se espalhando por todo o ambiente. Os ares ficaram agitados, como se estivessem numa tempestade em alto mar. Os ouvidos mais aguçados conseguiriam distinguir as notas de Walkürenritt, ou Cavalgada das Valquírias, de Wagner: no meio de todo aquele turbilhão tecido pela tensão, rompeu-se do teto os quatro cavalheiros do Apocalipse.

Era chegada a hora do Julgamento Final.

Estressado do jeito que estava, o suor lhe rolava em baldes de sua testa: o bigode tremelicava tanto que era capaz de girar 360º e sair rodando de seu rosto. O coração batia rapidamente em seu peito, e a pele não era capaz de aguentar variadas tonalidades de vermelho. Sentindo-se asfixiado dentro das amarras que havia criado ao longo de sua vida, o grandioso e possuidor de imensurável intelecto, emérito da academia, prof. Dr. Arístides Leônidas desfaleceu ao chão, morrendo de ataque fulminante do coração antes mesmo de seu corpo rebombasse um baque surdo pelo salão.

Todos ficaram atônitos com a cena que acabaram de presenciar, e foi necessário um minuto de paralisia em conjunto antes que alguém entendesse o que tinha acabado de ocorrer. Passados esses sessenta segundos, alguém irrompeu em dezenas de decibéis:

Vamos inaugurar o Bloco de Anatomia com o professor Arístides Leônidas!

A decisão foi aplaudida por todos os presentes, e logo surgiram candidatos para carregar o corpo do professor até a sala de aula principal do anatômico, um auditório que tinha a capacidade para vários lugares. Todos começaram a se empurrar e a se apertar para pegar os assentos na primeira fileira, que eram mais próximos da mesa de dissecção.

Ao olhar rápido e sem muito aprofundamento, alguém poderia julgar que a cena deveria ser igual ao público do Coliseu do Império Romano durante um espetáculo de gladiadores e leões.

Após algum período de (des)organização, todos os presentes encontraram um lugar para sentar, e os que chegaram tarde demais tiveram que se contentar nos assentos mais distantes do cadáver, sofrendo em lamúrias e muxoxos.

O diretor do Instituto de Ciências Biomédicas, agora com o falecido professor Arístides Leônidas, era o atual representante do Bloco de Anatomia. Montou ele uma equipe dos melhores professores da disciplina e lhes deu instruções de como começar a sessão de anatomia. Enquanto vestia o avental e as luvas, dirigiu-se para a plateia, que ansiava pelo espetáculo que se desenrolava.

-Meus caros alunos, tanto da graduação quanto da pós, e aos outros convidados honrados – disse, se referindo ao Reitor e aos membros da assessoria de imprensa – e meus caros companheiros de ofício, – disse, fazendo uma pequena reverência com a cabeça aos demais professores – dou boas-vindas a todos! Peço que mantenham a paciência e o silêncio para a condução dessa sessão de anatomia, que temos o prazer de ser com ninguém menos que o ilustríssimo Prof. Dr. Arístides Leônidas, professor emérito de nosso respeitável instituto.

Todos concordaram com a cabeça, emocionados com tamanha honra que o professor Leônidas cedia ao ser o primeiro cadáver dissecado dentro do novo bloco de anatomia.

-Peço aos alunos que observem com atenção e que tomem notas – sugeriu, e foi seguido de sons de rufar de páginas e canetas que começavam a rabiscar no papel.

Com um aceno da cabeça, fez menção para que um outro professor da mesa retirasse as roupas de Leônidas: o falecido professor ficou então nu aos olhos de todos os presentes (vale ressaltar que alguns alunos mais imaturos não puderam deixar de conter um risinho ao ver os órgãos sexuais expostos do professor).

O diretor do Instituto esticou sua mão e prontamente colocaram um bisturi afiadíssimo ali. Com uma precisão invejável e após alguns comentários dirigidos a plateia, realizou dois cortes em forma de V no peito do professor, seguindo com o corte até o umbigo. Um outro professor que estava disposto ao redor da mesa estancou o sangramento com o jaleco outrora limpíssimo de Leônidas.

-Estão vendo a angulação que eu tive ao realizar estes cortes? – mencionou o diretor, recebendo acenos positivos com a cabeça dos alunos – Agora, a retirada da pele: esta é uma etapa que requer cuidado… – o diretor enfiou o dedo dentro do tórax aberto, aplicando pressão nas extremidades para afastar a pele das entranhas – Estão vendo como estou fazendo? É preferível usar as mãos a instrumentos cirúrgicos, pois os mesmos são muito afiados e podem destruir estruturas de interesse…

Os alunos esgueiravam e esticavam seus pescoços, ansiosos para ver a cena brutal que acontecia na mesa de dissecção. Alguns poderiam até afirmar que se tratava de uma cena naturalesca e primitiva, como a cena de hienas que tentam surrupiar carcaça pertencente a outros animais.

-Agora, para se chegar aos órgãos vitais, deve-se retirar toda essa camada de gordura…

Tal tarefa foi árdua, pois Leônidas já contava com um grande acúmulo de gordura abdominal nos últimos anos de sua vida. O diretor do instituto quase que teve que sentar em cima do cadáver para conseguir retirar toda a camada adiposa: obteve o apoio dos demais professores, que lentamente iam despejando grandes placas de gordura no recipiente de descarte.

-Enfim! – exclamou o diretor, limpando o suor de sua testa devido ao tamanho esforço. – Todos conseguem ver os órgãos que aqui dentro estão?

Os presentes no auditório confirmaram: os que estavam nas fileiras mais afastadas, no entanto, continuavam reclamando de sua má-sorte.

Leônidas agora era apenas reconhecível para sua cabeça, que jazia numa expressão de grande dor e aflição. Seu tórax inteiro estava exposto aos olhares curiosos dos diversos pares de olhos que dentro do auditório se encontravam. Com um grande esforço, o diretor e o restante da equipe afastaram as grossas camadas de pele da barriga e do peito do falecido professor, revelando sua massa visceral: a cena, no entanto, era mais grotesca que a descrição da mesma.

Os órgãos pareciam pútridos, carcomidos: um químico diriam que estavam corroídos por ação de oxidação, um biólogo diria que o corpo estava sendo decomposto por dentro, um físico diria que o corpo estaria quebrando o princípio da conservação da matéria; um poeta finalmente diria que era um corpo há muito tempo morto sustentado pelos batimentos orgânicos de um coração.

Coração! Este era um órgão que jazia em estado atrofiado, asfixiado pelas próprias coronárias que ano após ano apertavam o músculo miocárdio, impedindo a oxigenação do tecido.

Os pulmões estavam tão pretos quanto os de um fumante: no entanto, nunca o prof. Leônidas havia colocado um cigarro em sua boca. O estado lastimável do tecido pulmonar era por conta do professor ter passado quase toda a sua vida dentro de laboratórios e salas de aula, sem se dar o luxo de sair por ai para caminhar e explorar as maravilhas escondidas nesse mundo.

O estômago estava cheio de úlceras devido às quantidades excessivas de café que Leônidas consumia. Além disso, as úlceras evidenciavam um pedido de ajuda que o estômago alertava ao restante do corpo por conta das eminentes e incessantes crises de ansiedade e estresse que o professor sofria. O resto do trato gastrointestinal também se encontrava cheio de feridas, úlceras e outras perturbações ocasionadas pelo estresse.

O fígado, este órgão tão atacado por indivíduos das mais variedades idades devido ao consumo excessivo de álcool e outras toxinas, estava, no entanto, tão diminuto e pequeno dentro do corpo de Leônidas que foi necessário uma busca extensiva por parte do diretor para encontrar tal órgão. Como Leônidas não bebia e nem se dava ao luxo de nenhum outro prazer terreno, o tecido hepático simplesmente fechou as portas do trabalho e foi-se esconder, desolado demais por ser esquecido pelo restante do organismo.

Descendo mais ainda, o diretor agora apontava para a plateia o sistema reprodutor e urinário do professor Leônidas: assim como o fígado, o sistema reprodutor se mostrava atrofiado, dando espaço apenas para a passagem de urina pela uretra. A próstata era tão inútil quanto os corpos cavernosos do pênis, que pareciam petrificados por inatividade.

O corpo por dentro jazia, então, em avançado estágio de podridão: sendo incapaz de continuar a lecionar os mais altos tópicos de anatomia humana, o diretor encerrou suas atividades, retirando a luva e o avental encharcados de sangue,

-Bom, meus caros – disse o diretor – Espero que a aula de hoje tenha servido para elucidar a todos como se funciona a dissecção de um cadáver. Agradeço muito ao nosso caro professor Leônidas por ter se mostrado tão útil em vida quanto em morte.

Os alunos, demais professores e outros presentes no auditório se levantaram e começaram a aplaudir o diretor: pareciam que estavam todos muito emocionados e sensibilizados com tamanha lição que acabaram de receber. Muitos desceram das cadeiras e foram cumprimentar o diretor pela excelente aula de anatomia; a assessoria de imprensa fazia fila para falar com os demais professores e com a equipe do laboratório do falecido professor.

Saíram do auditório de estudos anatômicos, deixando o cadáver exposto em cima da fria mesa de metal, com as tripas e as pernas ligeiramente caídas, balançando suavemente devido ao efeito da gravidade. Os aventais e luvas ensanguentadas estavam jogadas ao chão, e podia-se encontrar alguns pedaços de pele e músculo por ali também.

Ninguém se deu o trabalho de arrumar o salão após a aula: estavam todos engrandecendo o diretor do Instituto, que agora fornecia comentários específicos de dissecção em frente aos quadros de estudos anatômicos de Michelangelo.

Ninguém ao menos se deu o trabalho de apagar a luz.

O professor doutor Arístides Leônidas continuou ali na mesa por horas a fio, sendo apenas lembrado no dia seguinte pela equipe técnica do bloco anatômico. Por não receberem nenhum tipo de instrução de quem era que estava ali, os técnicos recolheram o corpo para procedimentos de fixação em formol. Para identificação das peças, escreveram Indigente No. 0001.

Em vida, foi muito reconhecido por seu intelecto e suas conquistas.

Em morte, morreu como qualquer outro perdido na rua, sem ter lágrimas de amores e paixões para molhar o rosto gélido pela rigidez post-mortem.

Nasce emérito,

morre indigente.

E assim terminou, então, a história de Arístides Leônidas: um homem que não foi amado e que não amou. Por não ter um coração que batia dentro de seu corpo, viveu muitos anos em condição de pura zumbificação.

Era apenas uma maquinaria orgânica.

 

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allons-y e boa noite

 

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Bande à parte, Godard

Bom dia, 

eu espero

calada

– me remoendo

A mão, esta de terceiro

que se apoia ligeiramente,

tão suavemente que nem os átomos se dão conta,

em meu ombro

me faz lembrar que não estou a girar em um vazio sem nexo,

caótico asfixiante, turbulento,

me faz lembrar que aqui, justamente aqui,

estou,

junto.

Gute Nacht,

espero,

sonho.

Não basta.

 

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As I don’t speak, I write

abramovic-arrow

Rest Energy, Marina Abramovic and Ulay

“You should filter what you feel”

Oh, Mister! I am weak for I know not

how to bow down and finally kneel

to the raging bull and this heart in knot

 

You should filter what you say

for I am walking alone on the way,

please, Mister, teach me how to be brave,

as the demons I never learned to slay

 

 I don’t even want to look at them again…

Mister, forgive my pride

take this foolish heart of mine

that no longer answers to my brain

 

…find a way to make me want to stay

I no longer can find the words to say,

as by your request my mouth is shut,

my synapses rendered to smut.

 

Good night

Good night Mister of mine,

I promise to make it right,

you will see in time

– everything will be fine.

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canção do exílio natal

melancholy

Melancholy, Edvard Munch

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Minha terra tem sua lingua,
Pela qual comunicam seus homens,
lingua essa, tão trépida
que lembra os porcos quando comem

Lingua que muito bem conheço
mas que não sei falar,
as mesmas palavras que utilizam outros,
a mim não fazem jus em me explicar

Minha terra pois é quente,
Onde passei meus piores invernos,
apesar de toda a imensidão solar!
perdida entre vinhos e poemas em versos.

Minha terra, de amantes cálidos
Não tem os amores estrangeiros, ah!
e os gozos, tão demorados,
em minha terra não são como de cá…

Minha terra de Andrade não tem seus Dias,
onde poesia não se considera como alma,
pois, ao contrário, é ovelha negra
aquele que não se lobotomiza com calma

Não permita Deus que eu morra,
sem que eu continue a penar por lá
sem que eu disfrute os primores,
que encontro por cá
sem qu’inda aviste a felicidade
onde não canta o Sabiá.

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Run to you

manet-fifre-2

Manet, Le Fifre

Era uma vez

Em uma cidade grande havia um capitão sem tripulação e sem embarcação.

O capitão passava dias a se indagar, a beira-mar,

se ele era pequeno demais para o mundo

ou se o mundo era pequeno demais para ele.

A cada nova onda que quebrava diante de seus olhos, o capitão sabia que deveria partir.

No entanto, não tinha compasso nem bússola: seu coração, por outro lado,

servia como seu próprio marca-passo.

Vendo aquela cidade grande, bonita mas sucumbindo ao próprio peso,

O capitão se decidiu: deveria partir.

Entr’acte

Enfrentou milhões de desafios: a falta de embarcação, a falta de tripulação, a falta de objetos de navegação

Criou tudo com as próprias mãos e com o suor que rolava de sua testa.

De suas mãos trêmulas e bronzeadas pelo sol que lhe lambia a cara, criou uma embarcação pequena

A embarcação tinha seu o casco feito com seus medos e inseguranças; para dar nó e unir as peças, se utilizou de seus desejos e loucuras interiores.

O acabamento veio de seus delírios originados de horas à fio ao sol.

A tripulação foi a mais fácil de achar: eram eles, o Orgulho, a Coragem e a Resiliência; este último foi o último a se unir ao grupo.

Os instrumentos de navegação foram um pouco mais complicados de serem encontrados: ao fim, pegou um conjunto de dados de seis lados para lhe dar o direcionamento.

Assim, preparado, colocou todos dentro da embarcação.

Içou as velas e puxou a âncora, o Conforto, o último elemento que o ligava ao cais.

Jogou os dados, calculou as probabilidades

e, por fim,

lançou o voo.

Aria

Por anos, a pequena embarcação navegou por todos os cantos do oceano

Sem nenhum destino em mente, o capitão apenas jogava os dados e deixava o vento decidir sua velocidade

Os outros membros da população ficaram agitados: o Orgulho e Coragem brigaram diversas vezes, sendo apenas a Resiliência capaz de separa-los.

Muitas vezes a Coragem se escondia e se jogava no mar de nuvens ao redor da embarcação, desaparecendo por dias até.

Nesse período o Orgulho aumentava de tamanho – e, au fur et à mesure, se tornava mais frágil.

A fome veio,

a sede veio,

e, com elas, veio a escuridão.

Medo, pânico, desilusão,

um redemoinho de forças internas que chacoalhavam a embarcação, ameaçando o possível naufrágio

que, devido a determinação do capitão,

nunca veio.

Regietheater

Um dia, acometido das injúrias causadas pelas navegação e o sal marinho que incrustava em sua carne,

o capitão olhou para o horizonte,

estrelas cadentes, magma vulcânico e o buraco-negro,

Ali, vindo solenemente, vinha o Menino

tocando sua flauta,

o seu uniforme limpo e às ordens.

Os dados cairam no chão da embarcação e se espatifaram em milhões de pedacinhos, espalhando probabilidades para todos os lados.

O som da flauta era o único som que resistiu à explosão de diversos multiversos ocasionado pela fratura dos dados partidos

O capitão juntou-se em seus trapos que expunham a carne bronzeada e lazarenta,

levantou-se e esperou o Menino se aproximar da embarcação.

A cada nota, a cada harmonia, a cada melodia

a embarcação chacoalhava

Aos poucos, se foi: quebrou-se.

O capitão permaneceu ali sozinho, sem tripulação,

sem embarcação,

sem navegação.

Juntou-se ao menino e pós a caminhar ao seu lado,

lado a lado,

e tornou-se Capitão.

Epílogo

A sua viagem, enfim, havia chegado ao seu objetivo,

não ao seu fim pois não havia destino,

o meio, afinal,

era de única importância.

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